A VIDA

DIARIO DE BORDO – O LIVRO

SÉTIMO CAPÍTULO

O tempo passa rápido, eu já com 19 anos na faculdade de medicina de outra cidade conheci outro tipo de beleza (a beleza cultural) e outro tipo de poder (o saber). Assim conhecendo outras mulheres comecei a ver o mundo de forma diferente. Eu ficava de segunda a sexta fora de Niterói e retornava cheio de desejos e fantasias, mas não como aquele “moleque “que se sujeitava a todas as vontades e formas de relacionamentos. Comecei a ver meus relacionamentos naquela família como uma aventura quase cinematográfica, em que o perigo era o diretor de cena.

Maria era a namorada assim todas sextas-feiras nos encontrávamos e o rumo a um motel era certo. Quanto a Helena, sua criatividade era incrível o que me excitava ainda mais do que aquele corpo perfeito.

Assim quase sempre passávamos o final de semana em uma casa na região dos lagos. La ela me colocou para dormir num deposito nos fundos da casa. Fiquei irritado, ofendido, mas logo pude ver que o objetivo não era para me afastar de dentro da casa (mantendo a privacidade da família) e sim me colocando de uma forma que ela podia ter acesso.

O quarto dos fundos, onde guardavam ferramentas e compras ficava fora de a casa porem sua janela ficava ao lado do quarto principal ao seu. Ela mandava todos irem logo para a cama para aproveitarem as praias no dia seguinte, porem seu marido saia com os amigos juízes e ficavam bebendo até tarde, na maioria das vezes fora de casa. E quando voltava estava tão embriagado que dormia intensamente. Assim eu ou ela tínhamos acesso ao quarto do outro pela janela. Eu entrando no seu quarto e se alguém quisesse ou tivesse que entrar eu saia pela janela e voltava para o meu, as portas trancadas nos permitiam isso. Quando ela vinha para o meu quarto (o marido estando dormindo), caso houvesse alguma necessidade ela saia do meu quarto pela porta e entrava na casa pela cozinha, alegando que estava tomando café ou água.

Não lembro em que momento percebi que vivia de uma forma que deveria ser uma permanente reinvenção de mim mesmos — para não morrer soterrado na poeira da banalidade embora pareça que ainda estava vivo.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos desejos, serem demais fútil nem demais acomodado. Algumas vezes  foi preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque descobri que a vida para mim tinha de ser servida não como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventa-la foi preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem era, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”

O problema é que quando menos eu esperava ele chega, o sorrateiro pensamento que me fazia parar. Pode ser no quarto da casa, na garagem, na rua, no motel ou nos lugares mais inesperados por mim. Simplesmente eu não precisava planejar nada, apela come-la. Ou na hora da janta, no café da manha, no meio da madrugada, do sexo sem limite, do tesão, do gozo, da aventura, da excitação e da resignação.

Sem ter programado, eu não parava pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário (14 anos) confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada dia, um sexo diferente. Muitas vezes transei para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um prazer indefinível. Alguma, para a noite além da cerca. Está chagando a hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-me.

Tesão pede audácia, pois gozar é transgredir a ordem do superficial que me pressiona tanto.

Eu era demasiado frívolo: buscamos o prazer das mil distrações, comendo de um lado a outro achando que eu era grande cumpridor de tarefas de minha masculinidade. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem eu era, o que fazia com a minha vida, o tesão, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não tinha sempre 14/15/17 ou 18 anos de idade, quando a prioridade absoluta era dormir sozinho transar continuamente com Maria (a namorada), e com Helena (a sogra) achando afinal nessa idade que isso era a vida.

Mas pensar não era apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: era sair para as varandas de mim mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: eu era inquilino de algo bem maior do que o meu segredo individual. Era o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza tinham significado como fases de um processo.

Se me escondesse num canto escuro abafando meus questionamentos, não escutaria o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderia que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependiam da perspectiva e possibilidades de quem (Maria e/ou Helena) ia tecendo a minha história. O mundo em si não tinha sentido sem o meu olhar que me atribuir identidade, sem o pensamento que me conferiria alguma ordem.

Não saber como quem iria gozar hoje, era recriar-me: a vida estava ali apenas para ser uma aventura e inúmeros orgasmos, mas não elaborada por mim. Eventualmente eu reprogramava. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. Não voltava para Niterói no final de semana.

Parece fácil: “escrever a respeito das minhas loucuras”, já me disseram. Eu sei. Mas não era preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, era preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que me era imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem me submeter, aceitar sem me humilhar, entregar-se sem renunciar a mim mesmo e à possível dignidade.

Sonhava, porque se desistisse disso apagar-se-iam a última claridade e nada mais valeria a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalhava obstinadamente para me enquadrar, seja lá no corpo da mulher que fosse.

E o mínimo que eu fazia era, a cada momento, o melhor sexo que afinal me pediam para fazer.

Queria tudo novo de novo. Queria não sentir medo. Queria me entregar mais, me jogar mais, amar mais.

Viajar até cansar. Queria sair pelo mundo. Queria fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e amigas mais. Queria ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Queria um trabalho novo. Queria não me questionar tanto, nem me expor tanto. Queria morar sozinho, Queria ter momentos de paz. Queria dançar mais. Queria mais mulheres diferentes, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Queria ser feliz, Queria sossego, Queria uma tatuagem. Queria me olhar mais. Queria mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Precisava me concentrar mais, delirar mais.

Não queria esperar mais, queria fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Queria conhecer mais mulheres. Queria olhar para frente e só o necessário para trás. Queria olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Queria pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Queria mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Queria aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Queria menos, “mas”. Queria não sentir tanta saudade. Queria mais e tudo o mais.

Quanto a elas: cronologicamente diferença de 22 anos, fisicamente não muito, corpos perfeitos, atraentes até na voz, psiquicamente sim eram opostas, uma (Maria) na cama muito boa, sem restrições, porem ao acabar o sexo queria sair e andar nos meios sociais. Me apresentava as amigas e frequentávamos shopping, bares e clubes. Curtia mais a vida social do que a sexual. Helena o oposto se apresentava como católica praticante e declarava que para ela o sexo era apenas para reprodução, nada de bares ou festas sociais, apenas as de família ou acompanhando o marido, atípica e tradicional dona de casa. Fato que procurava se comportar de forma extremamente conservadora. Mas… fora do publico havia uma outra Helena. Compulsiva por sexo de todas as formas. No sentido de não correr o risco de comprometer seu casamento não tinha amantes apenas eu lhe dava as condições de viver esta sua realidade. José um marido Juiz de direito, a tratava como uma mulher que apenas lhe interessava para poder mostrar aos amigos, agia como o dono de “um diamante” que teoricamente apenas ele usava e demonstrava sua posse.

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