AS "SANTAS"

São mulheres vivendo os seus sonhos. Muitas acreditam em fadas, gnomos, príncipes, princesas e amores de outro mundo. Não. Elas não são loucas, nem doidas e nem pirada. Elas simplesmente desejam viver com prazer.

Vim ao consultório dirigindo e liguei o rádio…

Vim ao consultório dirigindo e liguei o rádio…

Ouvir uma música que veio mesmo a calhar, pois ando com uma fome de arte, ando com saudades da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz, pois já não aguento mais ser apenas uma esponja absorvendo e analisando os transtornos das pacientes.

Ando meio desesperançado, mas essa canção de volta a minha mais antiga lembrança de amor. Isso mes­mo: a canção me trouxe uma cena que, há mais de 50 anos, me volta sempre. Sempre achei que esse primeiro momento foi tão tênue, tão fugaz, que não merecia narração. Mas vou tentar. Eu devia ter uns seis anos, no máximo.

Foi meu primeiro dia de aula no colégio, no Niterói, onde minha mãe me levou, pela rua 24 de maio, coberta de folhas de mangueira que o vento derrubava. Fiquei sozinho, desamparado, sem pai nem mãe no colégio desconhecido. No pátio do recreio, crianças corriam. Uma bola de borracha voou em minha direção e bateu em meu peito. Olhei e vi uma menina morena, de tranças, com olhos negros, bem perto, me pedindo a bola e, nesse segundo, eu me apai­xonei. Lembro-me que seu queixo tinha um pequeno machucado, como um arranhão com mercurocromo, lembro-me que ela tinha um nariz arre­bitado, insolente e que, num lampejo, eu senti um tremor desconhecido, logo interrompido pelo jogo, pela bola que eu devolvi, pelos gritos e correria do recreio. Ela deve ter me olhado no fundo dos olhos por uns três segundos, mas, até hoje, eu me lembro exatamente de sua expressão afogueada e vi que ela sentira também algum sinal no corpo, alguma infor­mação do seu destino sexual de fêmea, alguma manifestação da matéria, alguma mensagem do DNA. Recordando minha impressão de menino, tenho certeza de que nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro. Senti que eu fazia parte de um magnetismo da natureza que me envolvia, que envolvia a menina, que alguma coisa vibrava entre nós e senti que eu tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente que usava trança, que ria com dentes brancos e lábios vermelhos, que era diferente de mim, e entendi vagamente que, sem aquela diferença, eu não me completaria. Ela voltou correndo para o jogo, vi suas pernas correndo e ela se virando com uma última olhada. Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela escola. Lembro-me que me lembrei dela quando vi aquele filme Love Story, não pelo medíocre filme, mas pelo rosto de Ali McGraw, que era exatamente o rosto que vivia na minha memória. Recordo também, com estranheza, que meu sentimento infantil foi de impossibilidade; aquele rosto me pare­ceu maravilhoso e impossível de ser atingido inteiramente, foi um instante mágico, ao mesmo tempo de descoberta e de perda. Escrevendo agora, per­cebo que aquela sensação de profundo «sentido» que tive aos seis anos pode ter marcado minha maneira de ser e de amar pelos tempos que viriam. Senti a presença de algo belíssimo e inapreensível que, hoje, velho de guer­ra, arrisco dizer que talvez seja essa a marca do amor: ser impossível. Cal­ma, pessoal, claro que o amor existe, nem eu sou um masoquista de livro, mas a marca do sublime, o momento em que o impossível parece possível, onde o impalpável fica compreensível, esse instante se repetiu no futuro por minha vida, levando-me para um trem-fantasma de alegrias e dores.

Amar é parecido com sofrer – Luiz Melodia escreveu, não foi? Ma­chado de Assis toca nisso na súbita consciência do amor entre Bentinho e Capitu: «Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca.»

Isso: felicidade e medo, a sensação de tocar por instantes um mistério sempre movente, como um fotograma que para pôr um instante e logo se move na continuação do filme. Sempre senti isso em cada visão de mulhe­res que amei: um rosto se erguendo da areia da praia, uma mulher fingindo não me ver, mas vendo-me de costas num consultório do Rio… São momen­tos em que a «máquina da vida» parece se explicar, como se fosse uma lem­brança do futuro, como se eu me lembrasse ali do que iria viver.

Esses frêmitos de amor acontecem quando o «eu» cessa, por brevíssi­mos instantes, e deixamos o outro ser o que é em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de «compaixão» pelo nosso próprio desamparo, entre­ visto no outro. A cultura americana está criando um «desencantamento» insuportá­vel na vida social. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, vejam as mulheres nuas amontoadas na Internet. Andamos com fome de beleza em tudo, na vida, na política, no sexo; por isso, o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Todas essas tênues considerações, essas lem­branças de lembranças, essa tentativa de capturar lampejos tão antigos, com risco de ser piegas, tudo isso me veio à cabeça pela emoção de me ver subitamente numa música nessa cidade cheia de famintos de amor.

hunsaker

Sou o que sou. Sou incoerente por vezes, sou sonhador sempre, temo o desconhecido sem contudo deixar de arriscar, tenho planos e projetos, construí e ví cair em minha frente castelos. Como um anjo voei aos céus mas longínquos, e como um cometa caí. A queda me machucou, contudo me fez mais forte. Sou falho e impreciso. Simplesmente indefinível, enfim sou apenas um IGOR mas, o IGOR HUNSAKER.