RELATO DE UM CASO.

PARTE II

Minha família está farta de mim. Às vezes tenho a impressão de que meu marido quer me bater. Isso aconteceu outro dia em que, não sei por quê, esqueci a panela no fogão e a comida queimou. Quando chegaram, em vez de comida o que havia era fumaça e
um cheiro terrível por toda a casa, por mais que eu abrisse as janelas. Foi então que irrompeu essa fúria. Nena, a minha própria filha, gritou-me que estava farta de minhas palhaçadas, que aquilo não era depressão e sim descuido. Só meu filho saiu em minha defesa, abraçou-me e impediu que continuassem me insultando.

Pensei muito no que aconteceu. Não entendo: sou muito cuidadosa, minha casa é um espelho de tão limpa, até as panelas parecem sempre novas. Mantenho em ordem gavetas e armários, também guardo os papéis, os talões de cheques, os extratos de conta e o cartão de crédito, os bilhetes de meus filhos e boletins escolares, até as receitas médicas, as radiografias e os exames de
laboratório, porque fica tudo jogado. Faço os pagamentos no dia certo, nunca atraso; se alguma coisa enguiça, saio mil vezes até conseguir trazer o bombeiro ou o eletricista. E minha cozinha… precisa ver minha cozinha! E um primor, as colheres de pau num lugar, as de peltre em outro, as facas para picar ou para pão bem guardadas, as toalhas de plástico separadas por tamanho e as toalhas de mesa numa gaveta separada, os condimentos em frascos etiquetados, o azeite envolto em pano para não entornar. Sou tão obcecada com limpeza que posso pelejar durante horas com meus filhos para que levantem do quarto e arrumem seu escritório. Não deixo meu marido pegar sua roupa para que ele não desarrume as gavetas. Prefiro eu mesma separá-las à noite. Bem, pelo que posso dizer, até a cesta de lixo está limpa, até os panos de chão. E de repente, se uma panela queima, se queima a comida, minha vida se desordena!

 Tudo foi por culpa de um livro. Não sei se já lhe contei que, quando vou ao supermercado, passo em frente a uma livraria. Mas nunca paro, estou sempre com pressa, e além disso não sou uma compradora de livros. Mas, no outro dia, chamou-me a atenção uma capa em que aparecia uma mulher coberta com véus, da qual só se viam os olhos enormes, muito formosos e muito tristes. Não sei por que fiquei olhando, como que encantada. Doía-me a expressão daquele rosto, apesar de ser apenas um desenho! É um romance sobre os árabes, disse-me uma voz de homem. É repleto de magia e poesia, não gostaria de lê-lo? Achei graça. Para começar, não tenho tempo para ler, digo-lhe. Ando sempre atarefada e, além do mais, o que me importam os árabes? Mas ele insistiu, talvez porque lesse em meu rosto que eu estava mentindo, que não tinha era como preencher o tempo. Leve-o, me disse, certa- mente arranjará tempo. Se não gostar, traga-o de volta que devolvo o seu dinheiro. Cheguei em casa, preparei o frango com as verduras e, enquanto cozinhavam, deitei-me na cama e abri o livro. Comecei a ler muito depressa, porque não estou habituada, mas desde o início o livro me prendeu e me senti transportada a um outro mundo, em pleno deserto e até com areia na língua. E assim fiquei, lendo durante muito tempo, e de vez em quando parava para imaginar como seria eu vivendo nesse lugar e nessa época.

E de repente o cheiro de queimado. E quando todos chegaram não havia nada para comer, O que estava fazendo que não ficou de olho no fogão?, perguntou meu marido e eu, a idiota, lhe contei a verdade, que estivera lendo. Lendo?, surpreendeu-se guntar de onde havia tirado essa idéia, e desde quando os livros me atraíam, e por que razão eu descuidava de minhas obrigações, e que negócio era esse com os árabes, que a única coisa boa que tinham eram suas muitas esposas obedientes, que serviam muito
bem ao esposo. Eu me senti mal porque ele tinha razão; eu lhe havia falhado. Segundo diz o livro, não há maior felicidade para um homem do
que uma mulher obediente e submissa. Nessa noite não pude
dormir, inquieta e cheia de culpa. As histórias que eu havia lido
misturavam-se em minha cabeça com a cara de nojo de minha
filha e as palavras cruéis de meu marido. Quando amanheceu, eu
havia tomado a decisão de mudar e ser uma esposa como Deus
manda. O problema é que não sei se posso, porque não sei se saberei
como se faz. Creio que para sê-lo de verdade eu teria que ter
nascido lá, na Arábia, e ter aprendido desde menina, tal como
haviam aprendido minha mãe e minha avó. Se assim fosse, gosta-
ria de ter me chamado Aisha, como a esposa favorita do Profeta,
e, como ela, ter sido prometida em casamento aos sete anos, uma
tâmara ainda verde, como disse ele. Mas isso eu não sabería, pois
ainda teria de esperar cinco anos para casar-me, e durante esse
tempo ninguém me diria uma palavra a respeito. Vivíamos em Taif, a única, a murada, a fresca, a adornada com formosas palmeiras. Era o nosso oásis de verdor no meio do de certo, um lugar de montanha na imensa planície, um lugar ventoso em meio ao inclemente calor. Minha família não tinha terras para cultivar, pois eram daqueles que iam e vinham, vendendo
e comprando mercadorias. Tive sorte por me deixarem viver, de que ao nascer não me enterrassem na areia como era o costume antes, pois embora o Profeta já o tivesse proibido, ninguém tinha interesse em uma
menina: “Um filho é uma dádiva dos céus, mas não uma mulher
diziam. Mas aconteceu que nem meu avô nem meu pai estives
ruro à mãe, depois à mãe, em seguida à mãe, e por fim ao pai e aos
demais familiares. Mal fitei meu marido, como me haviam ensinado a fazer.
Montada no animal, fui seguindo atrás do dele quando iniciamos nossa travessia pela areia. Ele não me dirigiu a palavra mais do que uma vez. Disse-me que devia largar a tristeza e não derramar uma lágrima sequer, pois casar era um ato de felicidade e chorar era coisa de crianças, que eu já não era mais. Depois me avisou que o casamento era um contrato para ser penetrada, Akd Nikah, e que eu devia estar sempre disposta para ele, que agora era o meu dono.

Mas não tive tempo de cumprir o contrato, já que nessa mesma noite, enquanto descansávamos ao lado de nossas montarias, nos atacaram. Tudo foi tão rápido que mal me dei conta. Tinha ouvido falar dos árabes da terra vazia, mas não imaginei que um dia fosse conhecê-los. “Será morto se resistir”, disseram a meu marido. “Não queremos matá-lo, só nos interessa o butim.” Ele não resistiu e me tornei parte desse butim. Quando amanheceu, vi-me num acampamento beduíno. Havia perdido meu marido, meu camelo e os objetos que minha mãe me entregara para meu casamento. Jamais tornei a vê-los. Depois de esperar várias horas sob o sol do deserto, um homem veio a mim e falou: — De hoje em diante você é minha, pois eu a roubei. Viverá
como nômade e o deserto infinito será seu lugar. Nunca dormiremos duas noites no mesmo lugar em que acordamos. Sairemos pelo mundo em busca de água e alimento, sentaremos sobre peles de camelo com as pernas cruzadas e esperaremos que terminem as noites geladas e comecem os dias quentes. Beberemos leite de camela e comeremos tarfa. E você aprenderá a fazer o que fazem as mulheres e viverá como vivem os moradores das tendas.

 Assim começou minha nova vida, minha vida beduína. Vivíamos partindo de um lado para outro e trabalhávamos duro. De manhã bem cedo levantávamos acampamento e o dia era para caminhar ao lado dos camelos e das cabras, com os filhos às costas ou metidos nos alforjes, só com a cabeça de fora. Minha mãe era uma mulher de poucas palavras, mas nesta
ocasião falou mais:

Lembre-se de que o importante não é estar junto aos nossos de sangue, mas sim aos nossos na fé, pois esse é o seu Asl, sua honra e sua moral. Eu tinha então doze anos. Doze como o delo da profecia, doze como os Ímãs, doze como as ilhas que compõem a terra, doze como os anos de duração da infância. No dia do meu casamento vestiram-me com um mindil de seda fina trazido de terras distantes e que todas as mulheres da família haviam usado no seu casamento. Meu corpo era esbelto e liso como uma palmeira. Meu longuíssimo cabelo negro foi untado de azeite e minha pele de cor escura que ama o sol recebeu essências e perfumes.

Enquanto as mulheres me acompanhavam, meu pai e meus irmãos compartilhavam com os amigos um festim com vinho de tâmaras, sopa de cereais, tharid e carne. Três dias mais tarde, minha mãe se aproximou de mim e disse: Agora sim, chegou o momento. Paremos para chorar, Kifa Nakbi. — Grossas lágrimas escorriam por suas faces enquanto acrescentava: — Lembre-se de que a oração é a chave para o
paraíso e que a oração é o melhor que pode ser dado ao ser humano para alcançar a paz do espírito. Ore em nome do senhor seu criador.

Logo me fez repetir o sura:

“Senhor, permiti que eu vos dê graças pela graça que dispensastes a mim e a meus pais.”

Uma vez isso feito, despedi-me dela e fui entregue a meu marido, juntamente com dois camelos e uma bolsa de dinares. Parti, abandonando os meus — na época não sabia que era para sempre —, deixando para trás minha casa, meus entes queridos e minha Uma, a minha comunidade. Uma tristeza enorme me inundou e pensei em quanta razão tinha o Profeta ao dizer que  melhor dos tratamentos nesta terra devia ser dispensado primei surpreendidas: as luas passavam e meu ventre continuava liso, foram-se os invernos gelados e também os tórridos verões, quando muda a pelagem dos camelos, e eu não paria nenhum filho. Instigada pelas mulheres, atrevi-me um dia a perguntar a meu dono por que ele não me tornava sua mulher. Ele guardou silêncio por tanto tempo que achei que não me responderia, mas por fim falou:

Como é costume em minha tribo, as primaveras são os tempos sagrados de paz. Antes de conhecê-la, aproveitei esses meses para ir à cidade de Meca, onde jaz a pedra sagrada que nós beduínos veneramos. Mas, uma vez ali, ao invés de seguir os costumes do meu povo, conheci-os ensinamentos do Profeta, que me
afetaram profundamente e sobre os quais tenho meditado. Con-
tudo, não me atrevo a tomar a decisão de abraçar essa fé, por respeito a meu povo e meus ancestrais.

“Você, Aisha—continuou —, é piedosa e tem um bom caráter. Além disso, tem um belo rosto e uma bela voz, como disse o Profeta que as mulheres deveriam ser. Aprendeu com rapidez a servir-me. Resistiu à poeira que tanto prejudica os olhos, comeu e dormiu sob as estrelas e soube apertar o cinto para não sentir fome quando escasseia o trigo. Suportou as tempestades de areia e também as tempestades de palavras dos beduínos, que falam demais, acreditando que a beleza do homem está na sua eloquência. Vi você aguenta as injúrias das mulheres iradas e manter a calma. Vi tudo isto em você e apreciei. Calou-se e não me movi do lugar. Pouco depois, prosseguiu:

Pelo que entendi dos ensinamentos de Maomé, trata-se de uma nova maneira de ser e de crer, um código de fé mas também um código de conduta, ao mesmo tempo lei e poesia. Ainda não conheço bem seus mandamentos, mas ouvi falar do amor puro, aquele da mulher não-profanada, aquela que na terra pode ser como as huris que habitam o paraíso, esperando os fiéis, e que são sempre jovens e sempre virgens. E decidi, para que as portas do Éden se abram para mim, fazer com que você, minha mulher, conserve sua uffa, sua pureza, e que o nosso seja um amor.

Isso foi o que disse e nada mais. Fui obrigada a calar pelo pudor, pelo meu hichma e pela dignidade que devia ter uma mulher. A vida continuou seu curso entre as areias enquanto eu florescia inútil. A fisionomia de meu homem parecia cada vez mais atormentada e pensativa. Tomava as suas outras mulheres e fazia filhos nelas, porém jamais se aproximava de mim. “Você vai murchar por falta de rega”, as outras me diziam, mas eu nada podia fazer senão obedecer. Um dia, meu homem mandou me chamar para dizer que juntasse nossos pertences, apresentasse meus respeitos aos velhos e desse minhas despedidas a todos, pois íamos partir. Ouvira dizer que os beduínos nada valiam perante Deus e decidira submeter-se à Palavra. Apenas eu pude partir com ele, pois outros interesses não me prendiam à tribo. As demais mulheres e todos os filhos permaneceram com os seus. Antes da partida, meu dono repetiu três vezes:

La Ilah Illa Lab Wa Mukammad Rasul Allah

“Não existe Deus maior que Alá, e Maomé é seu Profeta.”

E foi assim que empreendí a segunda marcha atrás de um
homem, sem outra companhia senão nossos camelos. E foi assim
que Alá me permitiu voltar ao caminho certo, o caminho da ver-
dadeira fé.

Seguimos pelo deserto em longas jornadas marcadas pelo seu silêncio. Eu ignorava o nosso rumo e não o soube até que nos aproximamos dele. Certa manhã, logo após atravessarmos as montanhas, vislumbramos o vale em cujo fundo jazia a Cidade Santa de Meca, o santuário em cuja direção haviam-me ensinado a me voltar durante as preces. Senti uma grande emoção.
Pensei em minha mãe, da qual não tinha notícias há tanto tempo.

Quibla.

Meu homem, que vestia um ihram de penitente todo branco e sem costuras, atado à cintura e aos ombros com um cordão, me disse então: A partir de hoje vou me chamar Mohammed, em homenagem ao Profeta, e obedecerei a todos e cada um dos preceitos do Livro. Entramos na cidade pela mais movimentada de suas portas, Bab-el-Omrah, seguindo os peregrinos que repetiam “Labaika Allahuma, eis-me aqui, Senhor”. Atravessamos os becos estreitos e chegamos às praças em que os comerciantes estabelecidos e os vendedores ambulantes ofereciam seus produtos, enquanto os senhores e sua criadagem deixavam passar placidamente o tempo tomando alguma bebida. Sem parar, dirigimos-nos até o território sagrado onde se ergue a Grande Mesquita. Em uma das suas esquinas, a que aponta para o leste, jaz a pedra negra, a sagrada Caaba, que é cópia fiel da que existe no céu, onde vivem os anjos. Demos sete voltas, descalços, apesar do chão queimar nossos pés, e por uma tínica vez a tocamos suavemente com os dedos pois ao fazê-lo tocávamos a mão direita do Criador. De repente, Mohammed não pôde resistir e começou a beijar a pedra e a verter copiosas lágrimas, enquanto perguntava com
as palavras do sermão do Profeta: O, Deus, cumpri bem minha tarefa? ff Ficou longo tempo ali, apoiado na parede que rodeava a mesquita, entregue ao Altíssimo e à sua meditação. Sua boca movia-se ao recitar os suras e falando da fé: Cremos em Deus e naquele que o enviou a nós desde os céus. Eu o via em seu retiro, completamente esquecido do mundo, de si mesmo e de mim. Esperei pacientemente, como era meu
dever, embora a fome apertasse e a sede grudasse minha língua à boca.

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